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1º Campeonato Europeu Open

Menton 2003

Presença Portuguesa

I - Arbitragem

Para mim, Menton começou por ser um misto de entusiasmo (os primeiros campeonatos europeus com um gostinho de "american way", com todas as categorias juntas), preocupação (pelo volume de trabalho que iriam representar) e rotina (mais uma saída). Nada me tinha preparado para o que iria acontecer em seguida. Tive a sorte de, chegado a Nice, um dia antes do início das provas, apanhar uma boleia simpática da Maria João (Lara) e do Manuel (Capucho), que vinham no mesmo avião, e que tiveram a gentileza de se desviar do seu caminho para me depositarem à porta do meu hotel. Impecável.

O hotel era à porta do local do torneio, pelo que tudo estava a correr sobre rodas... Dez minutos depois de chegar, saí do hotel para um reconhecimento das redondezas (restaurante, supermercado, farmácia) e ouvi atrás de mim: "Director!" E lá vai o primeiro abraço, de um casal inglês que vinha jogar a prova. Os árbitros iam chegando, um pouco de todo o lado: Inglaterra, Itália, França, Turquia, Alemanha, Israel, Holanda, Suíça, Grécia, etc. O local do torneio parecia simpático. O frenesim habitual de montagem das mesas, preparação da "hospitality", e tudo o mais, estava em pleno. Enfim, o ambiente habitual das "vésperas".

No "dia D", lá estávamos (Riccardi, Bavin, Meiracker e eu) a coordenar uma quinzena de árbitros para receber as centenas de jogadores que com todo o seu entusiasmo rumaram a Menton. Pena foi que o "manager" da meteorologia se tivesse lembrado de mandar para Menton a maior vaga de calor dos últimos 40 anos. O "Palais d´Europe" infelizmente não dispunha de ar condicionado, e a elevada humidade do ar implicava que mal se começava a trabalhar o suor corria em bica. As manifestações de desagrado dos jogadores foram muitas, mas o torneio prosseguiu, com um grande esforço da parte de toda a gente (jogadores e pessoal de apoio). Nos quinze dias do torneio acho que suei mais que em toda a minha vida antes... Foi fisicamente muito duro (apenas um meio dia de descanso), mas acabou por correr tudo bem. O momento crítico foi quando, no fim do knock-out dos 1/16 no Open, depois de deixar a responsabilidade da sala a um dos outros árbitros para ir para um recurso, voltei uns 30 minutos depois para me certificar que tudo tinha corrido bem. A sala estava deserta, à excepção de duas equipas (Inglaterra / Turquia) que esperavam por "alguém" porque tinham terminado empatadas. Quatro jogos de desempate, depois de oito horas intensas de trabalho... Vamos a isto! Lá se encontraram jogos, lá se fez o desempate. Claro que as equipas jogaram os quatro jogos como se fossem os últimos, demorando uma eternidade. E a lei de Murphy atacou em pleno... 2ª mão - Uma abertura em 2 Ouros fraco em rico ou tricolor 10-15 sem ouros. O jogador chama-me no final do leilão e explica que queria abrir em 1 Ouro e não tinha reparado. Felizmente o contrato final é normal, a abertura não causou prejuízo, os adversários chegaram ao mesmo contrato e resultado final que na outra sala. Parece tudo bem. Lá se acabam as quatro mãos, e contas feitas a equipa (capitaneada por Brian Senior) inglesa vence o desempate por 10-8. Naturalmente os adversários protestam a 2ª mão. Sem ninguém com quem consultar (a esta hora o Palais estava deserto) lá estabeleci que não houve prejuízo no carteio ou leilão. Os turcos contestam então que abrir em 2 Ouros com aquela mão é um psíquico, e por isso deve ser penalizado (eram proibidos psíquicos de aberturas convencionais). Ora, um psíquico é uma voz que DELIBERADAMENTE se afasta do conteúdo da mão, e era claro que o jogador tinha marcado 2 Ouros inadvertidamente. Mantem-se o resultado. Aí, com a equipa turca e respectiva entourage toda a tentar escavar os 2 IMPS que faltavam, alguém se lembra de que 2 Ouros com aquele significado é "castanho" e por isso penalizável. Não me pareceu castanho, e segundo o que tinha sido já feito antes nos KOs, mesmo que o fosse seria penalizado em 3 IMPs, o que por ser um match em KO é dividido ao meio e subtraído ao resultado da equipa penalizada. Decisão final, já 22 horas da noite: "Não há prejuízo, não é um psíquico, não me parece castanho e mesmo que fosse a equipa adversária seria penalizada em 3 IMPs, o que significa que vencem por 8.5-8 em IMPs".

Claro que os turcos apelam. Toca a deixar um bilhete ao árbitro-chefe, para reunir uma CR no dia seguinte, 09:30 da manhã, que às 10:00 começam os 1/8 de final. Nesse dia o árbitro-chefe estava no seu meio dia de descanso, pelo que eu era hierarquicamente o árbitro principal. A comissão de recurso reúne e estabelece que o sistema é castanho, penalizando a equipa inglesa pelo "valor habitual", deixando ao árbitro (eu) a responsabilidade de atribuir a penalidade. Após alguma confusão se era mesmo 3 IMPs ou 6 IMPs, tomei a decisão de atribuir os 3 IMPs (o que significava a tal vitória por meio IMP). Os turcos entenderam mal a decisão, quando lhes foi comunicada (entretanto já eram 10:15 e todos os outros estavam à espera para começar), e sentaram-se à mesa enquanto eu descia um andar para comunicar a decisão aos ingleses, que pedem 10 minutos para se prepararem. Nesta altura um irlandês chega e avisa que os turcos começaram a jogar! Arrrggghhhh... Para cima, à velocidade da luz! Os turcos, quando percebem finalmente que perdem por meio IMP, têm uma reacção desesperada e batem o pé nos 6 IMPs em vez de 3, o que significaria uma vitória por 1 IMP. Não aceitam a decisão. Pelo sim pelo não fiquei nas salas, um pouco preocupado e triste por ter que eliminar uma equipa por meio IMP e ter sido eu a tomar a decisão (o meu meio dia de descanso ia rapidamente pelo cano...) Os turcos vão direitos ao presidente da EBL (Rona, que entretanto havia chegado) e ao presidente da CR (Bill Pencharz). A manhã termina com uma reunião entre mim, Rona, Pencharz e Endicott - o "guru" dos regulamentos. A penalidade de 3 IMP mantem-se. Depois de almoço, o árbitro-chefe chega e confirma a correcção da mesma. Uf!

Tirando este momento crítico, tudo correu pelo melhor. Pena que não houve tempo para actualizar as páginas da Lusobridge ao mesmo tempo, mas nem sempre as coisas correm como esperamos. O regresso a Portugal foi um alívio (pela temperatura). Voltei com o Juliano Barbosa no mesmo avião. Quando pisámos solo pátrio, estava frio e vento. E nunca me tinha sabido tão bem...

(Continuação)

 

Rui Marques

 

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