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Competição e Cooperação

No momento em que escrevo estas linhas é segunda feira, 5 de Setembro de 2005 e está um dia lindo lá fora. Dei por mim a pensar em há quanto tempo ando nisto dos torneios, a dirigir, organizar, planear, etc... Sem fazer aqui uma autobiografia, já lá vão 16 anos... Se a memória não me falha (não tive tempo de ir escavar as pastas de arquivo) fiz o meu primeiro curso de árbitro em 1989, pela mão do João Torres e do Mário Reis. O Torres resolveu afastar-se da modalidade, mas durante alguns anos foi um dos meus mestres mais activos. O Torres e o Mário deram o empurrão inicial, e nesse curso comecei a descobrir como é bonito e difícil dirigir um torneio de Bridge. Um bom desafio, que aceitei aos poucos e apenas graças às oportunidades que na altura se abriram. Estagiei em duas ou três provas com o saudoso Toni e com o Luís Oliveira. Lembro-me ainda de um Regional de Equipas Open com o L.O., numa sala por baixo das bancadas do Estádio de Alvalade, quando a sede da FPB se tinha mudado para a Baixa de Lisboa. Foi a primeira grande prova como auxiliar. Lembro a primeira grande prova sozinho (um Regional de Pares Open no Hotel Continental onde em vez dos 30 pares esperados apareceram uns 45, e onde com muito trabalho tudo acabou por correr bem) e o primeiro festival a solo, um torneio de Setúbal disputado em Palmela, na Sociedade Filarmónica e Humanitária "Os Caceteiros", onde dupliquei à mão duas secções, duas sessões de jogos, com as folhas de mãos escritas num Olivetti PC1 velhinho, com duas drives de diskettes apenas. Aliás, tive sorte em começar quando os computadores se começaram a  desenvolver. Lembro-me de ver, antes de ser árbitro, o Toni, a Nicas, o Paulo a meterem resultados num velhinho ZX81, num programa feito pelo Toni e que era algo de extraordinário à época. Lembro-me de antes disso (e já enquanto isso) fazer linguados à mão na Ordem dos Engenheiros e desesperar pelo dia seguinte para ter a classificação. Tive a sorte de ter uma aberta para arbitrar regularmente no Círculo Português de Bridge logo quando me "diplomei" como árbitro,  o que me deu muita rodagem inicial. Fiz calinadas impensáveis nos primeiros tempos... mas nunca que me lembre repeti o mesmo erro. Tive sempre o cuidado de aprender com as minhas falhas. Depois os torneios foram aparecendo a pouco e pouco. Em 1993 veio o Curso Internacional, em Amsterdão, onde entrei graças à força feita na altura por André Boekhorst e pelo Engº Soares de Oliveira, custeando eu as minhas despesas, e consegui o "A" que me abriu as portas para os campeonatos internacionais. O resto veio mais ou menos naturalmente, com muito suor e investimento (em tempo e não só).

Desde os primeiros tempos do CPB, quando ainda era o Rodrigo Cunha que estava à frente da parte de competição do clube, onde a Conceição Calé era uma figura incontornável, a competição com o CBL e a rivalidade de personalidades foi a motivação e forneceu o impulso para melhorias significativas na organização dos torneios um pouco por todo o lado. Quando um lado inovava, o outro ou igualava ou inovava mais um pouco, no que se pode chamar de "competição construtiva". E apesar de alguns episódios menos felizes e construtivos no meio, estes pouco mais de dez anos foram muito importantes para o Bridge nacional. Passou-se de torneios calculados à mão, com mãos dadas na mesa e duplicadas de uma secção para outra, resultados no dia seguinte, pontos de ranking calculados á mão e publicados a espaços, devido ao imenso trabalho envolvido, e outros arcaísmos, para torneios com mãos duplicadas em todas as secções, fichas ambulantes pré-impressas, folhas individuais disponíveis para todos poucos minutos depois da sessão, folhas com as mãos analisadas pelo Deep Finesse para todos os contratos críticos, resultados um ou dois minutos depois da última mesa acabar de jogar, classificações, resultados, folhas por email logo após o fim das sessões, páginas de internet com grande vitalidade e que permitem alcançar facilmente novos públicos, pontos de ranking calculados e actualizados quase "ao dia", torneios com as mesmas mãos em todo o país numa base regular, servindo de referência e progresso para muitos dos clubes envolvidos...

Se não houvesse a competição e o despique que houve de certeza que nem metade disto teria acontecido. Mas até a competição evolui e nos últimos tempos tem-se passado progressivamente para uma nova fase: Mais que competição, cooperação. E a cooperação está a dar frutos que provavelmente irão marcar o Bridge Nacional tanto como a competição marcou (pela positiva). Dá vontade de inventar coisas novas, de ouvir e melhorar ideias, de construir futuros..

Hoje soube-me bem pensar nisto e escrever estas linhas. Obrigado, Torres, Mário, Luís, José, Toni, Zé, Neide, Rodrigo, S.O., e tantos outros. Pela inspiração, pelo que aprendi, pela força, pela motivação, pelo impulso para fazer melhor. Um dia vou escrever mais que estas poucas linhas e reconstruir um bocadinho da (minha) história. Talvez quando passarem vinte anos. Faltam quatro. Até lá, muita coisa vai acontecer certamente, mas para já ficamos assim. Achei que devia partilhar estas linhas com todos. Aqui ficam.

Rui Marques, 5/9/2005

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